Neném, o Bragança, de Imperatriz!!!

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Quatro anos sem ele. Voz singular, única; nosso “papa festivais”. 



Por Raimundo Primeiro - Na madrugada de terça-feira, 15 de janeiro, há quatro anos, em 2015, Imperatriz perdia sua maior voz no âmbito musical. Morria, aos 55 anos, Raimundo Nunes da Luz Ferreira. 

Alguém sabe a quem me refiro? Muitos não! Trata-se, porém, de Neném Bragança, que, naquele trocar de um dia para outro, assim como o artista deixa o palco e vai para a coxia preparar-se para a próxima cena. Partira, deixando, além de seu legado, muitas saudades para os que do seu convívio desfrutaram. Eu, obviamente, fui um deles. 

Neném Bragança foi um dos principais vencedores de festivais de música de Imperatriz, sendo considerado, portanto, um ‘papa festivais’. Com sua inconfundível voz, foi o responsável pela projeção da música ‘Ave de Arribação’, de Ravier de Maiabá, de quem era amigo. 

A voz marcante, grave, que conseguia ir além do que as pessoas geralmente esperavam de Neném Bragança, também deu voz a outros sucessos, entre eles: “Imperador Tocantins”, de autoria de Carlinhos Veloz. 

Neném Bragança não era imperatrizense, pois havia nascido em Bragança (PA), mas considerava-se filho da cidade que o adotara desde que aqui chegara, apresentando-se em vários festivais, caso do Festival Aberto Balneário Estância do Recreio (Faber), realizado às margens do Rio Tocantins, no clube de mesmo nome. 

A projeção do cantor aconteceu em virtude de o mesmo ter conseguido ganhar cerca de setenta troféus em concursos de musicais. Vivia em Imperatriz desde a década de oitenta, possuindo elevada gama de admiradores. Seus shows não ficavam vazios. O público acorria aos locais onde ele apresentava-se, em resposta aos anúncios e as matérias veiculadas na imprensa, indo, assim, prestigiá-lo. O trabalho não foi em vão. Neném Bragança fez e deixou história no campo em que soube atuar – o da música. E com maestria! 

Neném Bragança, havia um ano, lutava contra um câncer no palato (céu da boca). O cantor esteve tratando da doença em São Paulo (SP), retornando a Imperatriz para dar continuidade perto de familiares e amigos. O cantor deixou mulher e filhos. 

Neném, como era chamado por muitos, descobriu a doença durante tratamento dentário realizado antes de entrar em estúdio para começar a gravação de “Som do Mará”, projeto composto por um DVD e um CD, lançado em 16 de dezembro de 2014, no “Brasileirinho”, em Imperatriz, com a confirmação acontecendo após biópsia. 

Há vários meses sem trabalhar, o show realizado por ocasião do lançamento de “Som do Mará” teve por objetivo levantar fundos para a continuidade do tratamento de Neném. 

Beneficente, o evento conseguiu levar para as dependências do “Brasileirinho”, Centro de Imperatriz, artistas e pessoas dos diversos setores da comunidade. 

Para o instrumentista Chiquinho França, amigo e parceiro do cantor há vários anos, coordenador do Projeto “Som do Mará”, Neném era um dos melhores intérpretes da Música Popular Maranhense (MPM). Com sua voz e performance, ele conseguiu fazer ecoar a música estadual, principalmente a tocantina, obtendo, por meio dele, projeção e reconhecimento nacional. Foi além das nossas plagas. 

O poeta, compositor, cantor e escritor Zeca Tocantins, membro da Academia Imperatrizense de Letras (AIL), que também esteve envolvido na divulgação de “Som do Mará” em Imperatriz, destacou a importância de Neném para a música maranhense. Segundo ele, as referências são as melhores possíveis. Zeca fez visita dias antes de Neném deixar-nos. Esteve na casa dele. “Estávamos confiantes e esperançosos”, comentou. 

Por meio da realização do Projeto “Som do Mará”, Neném conseguiu deixar registrado seu talento e trabalho para as futuras gerações, abrindo um novo leque de oportunidades para os novos autores e intérpretes imperatrizenses. 

A morte de Neném Bragança repercutiu nas redes sociais. No Facebook, por exemplo, vários comentários sobre a perda deste importante artista da música imperatrizense, foram feitos ao longo daquela triste, porém, musical quinta-feira. Neném partiu deixando, marcas. E marcas do bem. Por exemplo, seu jeitão peculiar de ser. 

Neném era assim: sempre simpático. O conheci. Durante algum tempo, o cantor chamou-me de Denis Carvalho, referência ao renomado diretor do Núcleo de Teledramaturgia da Rede Globo de Televisão (desconheço as razões). Talvez, pelo motivo de termos participados de uma Oficina de Teatro no antigo Paço da Cultura, assim que eu retornara da capital paraense, Belém. Saudosos tempos! Cultura fervendo nas veias do filho de dona Dina aqui. Hoje, apenas reminiscências. 

O universitário Nilton Nogueira dos Santos, estudante da Faculdade de Educação Santa Terezinha (Fest), lembrou que, quando uma árvore é cortada, renasce em outro lugar. “E nosso querido Neném Bragança, com certeza, está renascendo noutro lugar onde exista muita paz e amor”, aproveitando para acrescentar: “dizem, também, que Deus usa a morte pra nos mostrar a importância da vida (…). Descanse em paz, poeta imperatrizense”. 

O jornalista Elson Araújo, então assessor chefe de Comunicação da Prefeitura de Imperatriz (Ascom), ressaltou que Neném Bragança “deixa um enorme vazio, hoje preenchido pelas lembranças das suas múltiplas apresentações nos festivais e nas peças de teatro que participou”. 

Elson Araújo lembrou, a propósito, que “será impossível esquecer aquele homem simples, de voz poderosa, imortalizada pela belíssima interpretação de ‘Ave de Arribação’, a composição de Javier de Maiabá, que o consagrou como um dos mais importantes intérpretes da música maranhense”. 

Em tom de desabafo, Neto Garcia também fez comentários sobre a morte de Neném Bragança: “triste, principalmente pra mim, que tava com ele, aqui em Ribeirão Preto (SP), quando ele tava fazendo os exames e os médicos falaram que ele ia ficar bom e ‘zerado’, só dependia do maldito dinheiro. Ficam aqui meus sentimentos à família, minha indignação de ver que, perante aos homens, não somos nada mesmo. Ainda bem que Deus é misericordioso”. 

Ao longo de sua trajetória, Neném Bragança cantou grandes sucessos da Música Popular Brasileira (MPB). Na sua voz, as melodias de Zé Ramalho ganhavam realce. 

Tal qual a Ave de Arribação, andarilha, Neném Bragança voou para outro plano. Com sua voz, em muito contribuirá por lá, cantando e animando. 

*Raimundo Primeiro, jornalista e pesquisador; cronista do cotidiano

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